Maternidade

Educando futuros cidadãos

Como suportar os nossos filhos, para desenvolver sujeitos que se importam com a ética numa sociedade que só exige estética? Parte 1

Hoje vou falar de 2 das 5 fases do indivíduo segundo Freud, e o que cada uma delas exige de nós como cuidadores, segundo o ponto de vista do pediatra e psicanalista Donald Winnicott, e também trechos de uma palestra do psicanalista Ivan Capelatto, e meu olhar como mãe.

Seja você a mãe, a tia, babá, avós. Preferencialmente que sejam a mãe, mas na ausência desta, alguém precisa assumir essa responsabilidade. Lembrando que responsabilidade significa assumir as consequências do nosso próprio comportamento.
Hoje muito se discute o lugar da mulher, eu concordo plenamente que é onde ela quiser. Temos mulheres em todas as áreas, desempenhando de forma brilhante, funções que eram exclusivas para homens. Mas pouco se fala qual é o lugar da mãe.
Não sou psicanalista, nem se quer sou da área de humanas… Mas sou pesquisadora, me considero uma mãe suficientemente boa, e todos os posts desse blog têm embasamento científico e responsabilidade social.

Fase Oral: que vai do nascimento aos 18 meses. Para ser bem sucinta, é a fase em que exploramos o mundo através da boca. Que o bebê grita para ter alguém por perto, chora quando está com fome, chora quando tem dor, tudo que encontra coloca na boca, come mãos, pés, papel, e tudo que encontrar pela frente.
E o que é importante nessa fase? Bem, para um desenvolvimento psíquico saudável, é essencial que esse bebê nos primeiros 12 meses de vida, viva na mesmice. No mesmo lugar, com as mesmas coisas, com a mesma pessoa, preferencialmente que essa pessoa seja a mãe. Na impossibilidade desta, que seja a avó, ou alguém próximo. Que não seja um mês uma babá, outra no mês que vem, e daí por diante.

Por que ser cuidado sempre pelo mesmo adulto nesta fase? A morte da mãe, a troca frequente de babá, ficar hoje aqui, amanhã ali. A frequente troca do cuidador vai trazer prejuízos a essa criança. Que é a indiferença, uma pessoa que não consegue estabelecer vínculos fortes, tendência à depressão, neurose de angústia, pais que se ligam pouco aos filhos, aos amigos, aos parceiros, pessoas solitárias. Dificuldade de suportar o prazer.

Outro fator importante até os 12 meses é o desenvolvimento do Self, ou talvez seja melhor dizer, que o desenvolvimento em direção e conformidade com o self, propicia ao indivíduo:
Aumento da consciência;
Aumento da percepção de tudo;
Melhor compreensão da vida;
Pessoas seguras de si;
Responsáveis;
Com sentimento de pertinência.
Tudo isso possibilita se dar rumo à vida e conduzir o indivíduo à autorrealização.

Entendendo isso é que países como Alemanha, França, Canadá oferecem licença maternidade de mais de 12 meses. Para que mais tarde o Estado possa economizar com segurança, educação, judiciário, penitenciárias, e uma série de departamentos.

Fase anal: Dos 18 ou 19 meses aos 3 a 4 anos de idade, também vou explanar de forma bem superficial, para compreensão de todos. Mas te convido a buscar mais sobre esse tema.

Acompanhando a maturidade fisiológica para controlar os esfíncteres, a atenção da criança dirige-se da zona oral, para a zona anal. Ou seja, a criança começa a se importar com o xixi, o cocô. Algumas começam a se esconder para fazer suas necessidades.
Para o desespero das mães e julgamento dos ignorantes. Entra em funcionamento um mecanismo chamado sistema límbico, que nessa fase funciona no mais alto grau e volta na com tudo na adolescência. O sistema límbico é o responsável basicamente por controlar as emoções e as funções de aprendizado e da memória.
É um mecanismo de proteção que envolve fibras, hormônios, memória. É um ato de defesa que entra em funcionamento quando estamos frustrados, quando recebemos um não, quando nos tiram o prazer. Na prática funciona assim:

Você é uma mãe suficientemente boa, dedicada a essa criaturinha à quase dois anos ou mais, e diz com todo amor e carinho: filha, vamos tomar banho? E ela cheia de raiva diz: Não!

O que aconteceu? Essa criança que até então estava prazerosamente brincando, vendo televisão ou fazendo qualquer outra coisa. E sua mãe veio lhe tirar do prazer. E essa é reação de uma criança normal.
Esse mecanismo é o sistema límbico em ação.
Na maioria das vezes essa mãe sem lucidez, grita e age de igual para igual com uma criança de 3 anos. Ou tenta explicar de forma pedagógica porque ela precisa tomar banho, o que não vai adiantar muito neste momento. E nenhuma das duas entende o que está acontecendo.

O sistema límbico só funciona com gente normal. E nossa sociedade por ignorância chama isso de criança mal educada, birrenta. E não compreende que é uma fase, que precisa ser vivida.
Do ponto de vista neurológico, é quando a criança começa a criar identidade, e se foi bem criada na fase oral, agora ela vai começar a dizer NÃO. Filha vamos comer? Não. Filha vamos prender os cabelos? Não. Filha vamos tomar banho? Não…
Ela não faz isso para te irrita, nem para ser do contra.
Ela diz não, para te dizer que ela tem um querer, que você é você e ela é ela.
Do ponto de vista psíquico aparece a função do reconhecimento do outro, e de si mesmo através dos porquês. Mamãe porque você colocou os sapatos? mamãe porque você ligou o ventilador? Porque isso? Porque aquilo?
Trata-se da formação de uma identidade de pertinência. O ato do outro me interessa.

E tudo é meu, esse é o MEU pai, o MEU brinquedo, é a MINHA mãe. (filha, empresta o brinquedo para o coleguinha? Não, é meu). É uma criança normal.

Outra característica dessa fase é marcar o território. Outro dia dei uma vasilha com uns biscoitos para Vick e observei que ela mordia um, depois o outro, e outro. E por falta de conhecimento, interferi. Disse que ela tinha que comer um de cada vez.
E ao me aprofundar no assunto descobri que esse é um ato feliz e normal até os 4 anos e meio. Pertinência (vou marcando as coisas para sentir que são minhas). A casa é o território dela.
assim como é biológico nos animais, urinar nos locais para marcar o território, enterrar ossos. A criança morde todos os seus biscoitos, ou esconde em algum lugar, para ter esse mesmo sentimento.
Hoje em dia, munida de conhecimento, já não interfiro, só observo.
Faz parte do desenvolvimento da criança.

O egoísmo, o egocentrismo. Faz parte da formação da identidade. E interferir nessa formação não cabe a nós, para que essa criança não tenha prejuízos futuros.

Sabe a metáfora da borboleta?
Um homem, certo dia, viu surgir uma pequena abertura num casulo. Sentou-se perto do local onde o casulo se apoiava e ficou a observar o que iria acontecer, como é que a lagarta conseguiria sair por um orifício tão miúdo. Mas logo lhe pareceu que ela havia parado de fazer qualquer progresso, como se tivesse feito todo o esforço possível e agora não conseguisse mais prosseguir. Ele resolveu então ajuda-la: pegou uma tesoura e rompeu o restante do casulo. A borboleta pôde sair com toda a facilidade… Mas seu corpo estava murcho; além disso, era pequena e tinha as asas amassadas. O homem continuou a observá-la porque esperava que, a qualquer momento, as asas dela se abrissem e se estendessem para serem capazes de suportar o corpo que iria se firmar a tempo. Nada aconteceu! Na verdade a borboleta passou o restante de sua vida rastejando com um corpo murcho e asas encolhidas. Nunca foi capaz de voar. O que o homem em sua gentileza e vontade de ajudar não compreendia era que o casulo apertado e o esforço necessário à borboleta para passar através da pequena abertura eram o modo pelo qual Deus fazia com que o fluido do corpo daquele pequenino inseto circulasse até suas asas para que ela ficasse pronta para voar assim que se livrasse daquele invólucro.

Isso é o que muitas vezes fazemos com nossos filhos.

É nessa fase também que a criança arranca a cabeça das bonecas, separa os braços do corpo, rasga revista, pica talão de cheque, puxa as folhas das plantas. Bagunça tudo que está fora, para juntar dentro da cabecinha dela.
Você já viu uma criança que fez um desenho, mostrou para alguém, a pessoa elogiou e depois ela rasgou?
Que a mãe penteou os cabelos, a criança mostrou para o pai e depois bagunçou? Parece estranho né? Mas é absolutamente normal. É a maneira que eles têm de internalizar. É preciso desmontar fora, para juntar e guardar dentro de si, como um quebra cabeça na mente.

Então o que cabe a nós, nessa fase? Já falei em outro post e vou falar novamente. Se você tem uma criança em casa, vivendo essa fase, tenha o cuidado de tirar do raio de alcance dela, tudo aquilo que não é permitido mexer, e deixe a criança livre para que se desenvolva. Porque isso faz parte da formação psíquica dessa criança.
Outro ponto de atenção, é no que se refere aos limites. Quando criança, e quando adolescente, o individuo precisa sentir que alguém toma conta dele. E precisa fazer distinção do que sou eu, e de que é ele. Do meu desejo.
Não vai fazer isso, porque a mamãe não quer. Nunca porque não pode. Pode. Mas é meu desejo que não faça.
O “eu não quero” é o limite, o desejo de quem cuida. E precisa explicar para a criança? Sim. Quando ela perguntar porquê não pode?
– Porque EU não quero!
Se você explica, não é limite, é regra.
Isso foi dito no século XX, pelo pediatra e psicanalista inglês Doanld Winnicott, esse cara dedicou toda a vida dele a estudar o comportamento das crianças. E é muito difícil convencer os adultos disso.

Quando eu digo a uma criança: não faça isso, não mexa aqui. Eu aciono o sistema límbico dela e nem sempre estamos prontos para suportar isso. Às vezes já suportamos o dia inteiro o sistema límbico do nosso chefe, ou estamos segurando o nosso. Ou ainda, estamos na vibe da pedagogia do amor, que não se pode frustrar os filhos porque mais cedo ou mais tarde eles já serão frustrados lá fora. O que esquecemos é que o mundo lá fora não tem pai e nem mãe. Se você como educador, cuidador, curador, zelador dessa criança, for permissivo, não fizer isso agora, quando adolescente ou adulto ele não vai saber como lidar com a frustração, com a raiva, com o medo, com a angústia. E vai se transformar naquele menino que quando a namorada termina com ele, ele quer matá-la, porque ele não suporta o NÃO. Quando alguém fecha ele no transito, ele corta por cima da calçada para ultrapassar a pessoa, aquela pessoa que não consegue controlar a própria raiva, às vezes até se machuca, machuca o outro. Entende até onde isso reflete?

Então como devemos agir para criar indivíduos dotados de inteligência emocional e saúde mental?

Parece simples… Desse lado aí você não imagina o quanto eu também tenho que me controlar. Até mesmo porque a psicologia usada pela minha mãe, não sei se você conhece. Foi a do cipó, a do cinto…

Então vamos na prática.
Filha vamos tomar banho.
– Porque?
Porque a mamãe quer.
E ela dar aquele show, furiosa. Você pega a criancinha, sem explicações, a leva para o banho, controla o seu sistema límbico também, e com toda calma, faz tudo que tem que fazer. Quando joga água a raiva melhora, você oferece a esponja com sabão e a pessoinha começa passar na parede, você começa a lavar os cabelos e ela com raiva querendo brigar, diz que ta machucando, que o shampoo ta ardendo os olhos, ta puxando os cabelos. Você desliga o chuveiro e o ser humaninho agora chora porque quer ficar no banho. A toalha incomoda. E a briga agora é para não vestir a roupa, essa roupa eu não quero. Você veste assim mesmo.
passados alguns minutos, como se nada tivesse acontecido. La vem a pessoinha feliz te abraçar, pedir alguma coisa.
O que aconteceu? O sistema límbico foi acionado no momento que a tirou do prazer, teve começo, meio e fim. Parou de funcionar, e ela submeteu-se ao desejo da mãe.
Se você tiver paciência e fizer isso por 8 dias, no 9° dia quando você disser: filha vamos tomar banho? Ela vai dizer: eu posso levar a boneca? A bola? E vai tranquila.

Estou falando de psiquismo. Autoestima – a possibilidade ética de eu gostar de mim. Alguém sem autoestima, é alguém que procura na estática, uma maneira de gostar de si. Uma crise do sistema límbico é feio, é vergonhoso. E suportar isso é belo, suportar que eu posso sentir raiva quando estou no meu desprazer, é um sentimento ético. E isso vai formar um ser humano melhor.

Não confunda autoritarismo com autoridade. Autoritarismo seria dizer: vamos tomar banho e se chorar apanha.
Cala a boca, se não eu vou te dar motivos para chorar de verdade.
A autoridade parental é indispensável para a construção do caráter e da personalidade dos filhos. Crianças criadas sem consciência de limites se tornam adultos frustrados, sem respeito pelo próximo ou a si mesmo.

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