Maternidade

Comportamento inadequado é sintoma, qual é a causa?

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Hoje quero compartilhar com vocês um comportamento da Victoria, e o que havia por trás dessa conduta. Da importância de observar e ouvir nossos filhos. Tentar compreender a angustia deles, no caso da Victoria como ainda é bem pequena, ajudar a colocar em palavras para que isso não se transforme num trauma futuro.

De uns dois meses para cá, sempre que ela ficava brava, desapontada, ou contrariada, dizia: vai embora!! num tom colérico.
Percebendo essa frequência, uma das vezes, depois de ela ter se acalmado eu perguntei porque ela mandava ir embora, onde ela tinha visto alguém mandando embora. E para minha surpresa, ela muito chateada, com um choro engasgado, me disse: tu mandaste a “Joaquina” ir embora. (Joaquina é um nome fictício).
Essa pessoa era minha funcionária, desde que Victoria tinha 10 meses, e certo dia eu encontrei em minha lixeira um volume estranho, abri, e lá tinha algumas coisas que não vem ao caso. Mas o fato é que ela estava me roubando. Eu andei em direção a funcionária, com a sacola nas mãos e pedi explicações, a minha decepção transbordava pelos olhos, a mulher ficou nervosa, a criança assistindo a cena lamentável.
Esse é um caso isolado, que pode aqui ser substituído por uma briga entre os pais que gerou separação, a perda dum ente querido, desligamento entre pessoas próximas…
Nesse momento o pai chegou, e a Vick correu para a porta, dizendo: papai, papai a minha mãe tá chorando, a Joaquina estava levando isso e isso. Eu passei a ocorrência para ele, e me retirei com a criança, fui dar banho e cuidar dela. Ele acertou as contas com a senhora, na hora de ir embora, a senhora se despediu da criança, e para nós, acabou aí.
Mas até hoje, três meses depois, sempre que Victoria chega em casa, aperta a campainha esperando que a senhora abra a porta. E no início, todos os dias, perguntava por ela, se ela não ia chegar.
Então quando ela me disse que o “vai embora” significava isso, eu notei o estimulo traumático e comecei a trabalhar essa angustia, tentando explicar didaticamente para uma criança de 2 anos e meio o que é a confiança e quando essa se quebra a pessoa precisa ir. Bem, ela acha que a confiança é um objeto. Mas entendeu o contexto. A parti de então, todos os dias eu peço para que ela me conte o que aconteceu, porque a senhora teve que partir. No começo ela falava chorosa e com raiva, e hoje ela diz com muita serenidade que a senhora teve que ir.
Trazer acontecimentos à luz, com clareza, com riqueza de detalhes, traduzir o afeto em palavras, é uma forma de fluir, de transcender.

O que aconteceu aí? No campo psíquico, assim como na física, no princípio da ação e reação. Onde diz que “a toda ação corresponde uma reação de igual intensidade no sentido contrário”. Ou seja, quando eu tô com raiva e dou um murro na parede, eu vou receber de volta, com a mesma intensidade o murro que eu dei.
No campo psíquico a toda ação, a toda causa corresponde um efeito. Não quero dizer que essa ocorrência sozinha teria a capacidade de traumatizar uma criança. Porém, o acumulo dessas excitações, vai criando trilhas em nosso cérebro, excluindo a saúde psíquica. Daí nasce obsessões, fobias, indiferença, depressão… Quando nos encontramos num estado psíquico mais delicado, por exemplo a perda de um ente querido depois de adulto, tudo vem à tona, e a gente desmorona. Não foi a perda de alguém, não foi a última gota que fez o copo transbordar. foi a somatória desses eventos, que já nem lembramos mais, já foi arquivado lá no inconsciente e a gente fica doente sem nem saber porque.
É aí que mora a diferença entre cuidar de uma criança e assumir a responsabilidade sobre ela nos dias de hoje.
A agressividade infantil, criança muito quieta, ou extremamente inquieta, são sintomas, é preciso identificar a causa, não maquiar os sintomas.

A segunda maior causa de morte no mundo é o suicídio, isso é assustador, porque não temos mais tempo de observar que nossa criança está se cortando, se queimando, pedindo socorro. Querendo que alguém tome conta dela. Por isso quer ir para o estado islâmico, porque lá tem um cara que vai tomar conta da vida dela, que diz: olha, agora você vai fazer isso, agora você vai colocar essa bomba na cintura. Por isso estão indo para o tráfico, porque lá também tem um cara durão que vai dizer: anda na linha se não eu te mato. Por isso vai para a prostituição, não é para ganhar dinheiro, começa para ter a cafetina tomando conta da vida dela, dizendo o que ela tem que fazer, e quando.
Essa criança pode ter 2, 3, 15, 35 anos. Continua pedindo socorro, quando não acha amparo, tira a própria vida.
Esse tomar conta, começa de muito cedo, quando eu digo: filha está na hora de fazer tal coisa, tomar banho, escovar os dentes, comer, ir para a escola etc.
Ela esperneia, não quer ir, e vai assim mesmo. (Não querer ir, quer dizer que ela é uma criança psicologicamente normal, não é oprimida). Inconscientemente ela sabe que tem alguém tomando conta dela, zelando por ela. Deixar um ser humaninho fazer o que quer, comer o que quer, na hora que tem vontade, você está dizendo para ele, indiretamente, que ele tem autonomia. Segundo Kant, autonomia é um conceito que determina a liberdade de indivíduo em gerir livremente a sua vida, efetuando racionalmente as suas próprias escolhas. Neste caso, a autonomia indica uma realidade que é dirigida por uma lei própria, que apesar de ser diferente das outras, não é incompatível com elas.
Será que essa criança já tem esse senso? Acho que não. Então ela precisa saber que existe uma hierarquia, que ela está sob minhas ordens, eu estou sob as ordens de alguém acima de mim e que temos que respeitar.
Se a criança levanta caladinha e vai, também tem coisa errada. Ela precisa ter a liberdade de se expressar, afinal não estamos adestrando, estamos educando.

Quem conhece a Victoria, sabe que ela é uma criança livre, para se expressar, para criar, para falar, muito amorosa, respeitosa. Eu crio condições para ela ser livre, mas na hora que é necessário ir, ou fazer alguma tarefa, comer, dormir, seja lá o que for, ela argumenta, negocia, se possível a gente se entende, se não, ela vai fazer o que eu quero, porque na idade que ela está, quem sabe o que é bom para ela, sou eu.

Conclusão, vamos perder tempo agora, na educação. Para não perdermos o sossego depois. De nada adianta construir um lindo castelo na praia, sem alicerce, ele vai cair.
A base é o mais importante.
Quando nosso ninho estiver vazio, teremos muito tempo para novelas, séries, redes sociais e vida social ativa.

Por hoje é tudo, espero que reflitam sobre isso.

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um comentário

  1. Parabéns, ótima abordagem de um tema muito comum no contato diário com a criança, concordo com sua forma de conduzir a situação. É preciso fazer o que precisa ser feito (óbvio,mas,nem sempre é feito ) com carinho e firmeza

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